Combatendo o crack com informação e diálogo na sala de aula.

O cardápio está posto: maconha, cocaína, crack. Os talheres também: um cachimbo, um isqueiro, uma lata de energético vazia. O jovem está com fome e com sede. Em questão de instantes, tudo é consumido com uma voracidade contumaz. Não demora e a euforia dá lugar à indigência. Deitado, enrolado com um cobertor, ele sofre.
Minutos depois, sete jovens e adolescentes estão de mão dadas, reverenciando a pequena plateia no improvisado palco de uma escola da zona rural do município de Pesqueira, no Agreste Central, a 212 quilômetros do Recife. O povoado se chama Ipanema, tem pouco mais de mil moradores. A escola é a Sérgio de Brito Cavalcanti, tem 300 alunos do ensino infantil e ensino fundamental I e II. A cena de consumo de drogas é fictícia, faz parte de uma peça escrita pelo professor Gilberto Tavares da Silva e estrelada por alunos e ex-alunos do estabelecimento e é um reflexo do projeto Pernambuco Contra o Crack, uma das ações da gestão estratégica do Ministério Público de Pernambuco.

Em 2015, uma caravana liderada pelos promotores de Justiça que atuam em Pesqueira percorreu as escolas do município a fim de orientar a comunidade escolar sobre as drogas. Concursos de redação, poesia e ilustração foram realizados, mobilizando professores, estudantes e pais em torno da ação institucional.

“A ideia era sensibilizar a sociedade. Para isso, conseguimos reunir toda a rede de proteção à criança e ao adolescente, além de órgãos públicos, clubes de serviço, igrejas e o comércio. Foi um momento importante”, pontua a promotora Andrea Magalhães Porto Oliveira.
“Foi um divisor de águas. Uma chance para que a sociedade visse o Ministério Público como uma instituição na qual pode confiar. Creio que esse foi um dos motivos pelos quais fomos bem avaliados”, destaca a promotora Jeanne Bezerra. “Muitos dos temas com que trabalhamos são transversais e precisam que nós três tenhamos atuação”, reflete o promotor criminal Oscar Nóbrega, salientando o aspecto cooperativo do trabalho do MPPE em Pesqueira.
Os dados de Pesqueira na pesquisa de opinião O MPPE na perspectiva da população pernambucana falam por si sós: 71% dos entrevistados na cidade disseram confiar na instituição, 65% garantiram que admiram o Ministério Público e outros 71% sabem onde fica o prédio onde funcionam as Promotorias de Justiça.
Voltando à promoção do Pernambuco Contra o Crack, os promotores avaliam que o foco na comunidade escolar se mostrou positivo. “Os professores têm um olhar privilegiado, uma vez que eles estão em contato direto com os jovens e podem identificar nuances que nem os promotores, nem a polícia ou ainda outros atores da rede de proteção têm condição de identificar”, enfatiza Andrea Magalhães.

Esse olhar diferenciado é corroborado pela diretora da escola de Ipanema, Marta Dantas. “Projetos como esse são essenciais para que a gente saiba o que pode ocorrer com nossos jovens”, opina ela, em frente ao prédio do educandário. “A sensação é gratificante. Uma experiência que só nos enriquece como instituição”, complementa Indianara de Melo, originalmente professora da rede municipal, mas atuando no Ministério Público ao lado da promotora Jeanne Bezerra. “Nós entramos de cabeça e trabalhamos com afinco”, completa.
Pode parecer que um povoado pequeno, encravado entre serras no Agreste de Pernambuco, seja inacessível à droga. Professores e moradores fazem questão de dizer que não há “isso” em Ipanema. Mas há. E quem garante é o próprio protagonista da peça teatral do início do texto. “Para entrar, tudo é fácil. Agora para sair...”, atesta Igor Aguiar, 20 anos, ex-aluno da Escola Sérgio de Brito Cavalcanti. Ele conta que se apegou à religião para abandonar o vício. “Foi difícil, mas hoje eu estou bem. Não foi uma experiência muito boa. Achei, no início, que seria bom para mim. É uma ilusão”, reconhece ele, que lança luz sobre programas como o Pernambuco Contra o Crack:“da escola, a gente aprende e pode levar essa informação para os pais e para outras pessoas de fora”.
Rede de proteção – Como no resto do Estado, a violência tem crescido em Pesqueira. E os promotores estão atentos a essa onda de criminalidade, principalmente nos aspectos de prevenção. Por isso, apoiam iniciativas como a Ação Social Esperança e Vida (Asevi). Funcionando próximo ao seminário São José, a ONG atua no serviço de convivência e fortalecimento de vínculos. Recebe verbas públicas para cuidar de 100 crianças entre quatro e 13 anos, oferecendo atividades educativas e esportivas. Uma espécie de contraturno para meninas e meninos que têm com quem ficar.

“O apoio do Ministério Público é muito importante. Ficamos felizes em ver que o nosso trabalho é reconhecido”, afirma a coordenadora da Asevi, Ivaneide Silva. “Uma andorinha só não faz verão. A parceria com as entidades civis é primordial”, aponta a promotora Andréa Magalhães.
O trabalho em rede é um dos pontos que fazem com que o Ministério Público atenda demandas que, em tese, nem estariam em suas funções constitucionais. Mas, como guardião da democracia e defensor dos direitos da população, essa função é ampliada. Ainda assim, será que a população entende isso? E mais: promotores, procuradores e servidores estão cientes sobre o que a sociedade espera que seja o papel do MP? É o que você vai conferir na reportagem de amanhã, a última da série de reportagens MPPE na Estrada.
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